Sanabria - Peña Trevinca...

07/08/2010

Aventura pelo GR28 - Maciço da Gralheira

Que grande aventura esta em que eu e o meu amigo Vicente nos metemos.
A ideia era fazer o Gr28 "Por Montes e Vales" que circunda o Maciço da Gralheira.
Sabemos que o percurso foi idealizado para ser efectuado a pé mas à nossa maneira decidimos percorrê-lo de bicicleta. E como se não bastasse empurrar a bike resolvemos também fazê-lo em autonomia levando as bicicletas carregadas com alforges contendo tudo o que nos era necessário durante a travessia.
Atendendo à distância que o Gr28 tem, mais de 80 Km, e à dificuldade que o mesmo oferece, achámos que apenas o fim-de-semana não seria suficiente para o realizar na íntegra pelo que optámos por o dividir em três etapas fazendo a primeira na sexta-feira à noite.
A divisão do percurso não era rígida excepto nesta parte nocturna em que pretendíamos chegar de Arouca ao parque de campismo do Merujal. No Sábado faríamos o maior número de Km's possível em direcção a Alvarenga, passando esta localidade, se possível, ficando o restante caminho até Arouca para o Domingo.
Na primeira noite iríamos aproveitar o "conforto" do parque de campismo e na segunda o "desconforto" da tenda no meio da serra.
E embora com um planeamento em cima da hora do qual resulta sempre em algumas falhas, lá iniciámos a travessia pelas 20 horas de sexta-feira, saindo da Câmara Municipal de Arouca em direcção ao Merujal.
Após encontrarmos as primeiras indicações do percurso, o que só conseguimos através da leitura da carta militar onde tínhamos traçado o percurso, percebemos que a tarefa que nos esperava ia ser mais difícil do que nos parecia inicialmente.
As subidas não tardaram e a falta de sinais em cruzamentos e entroncamentos também. A carga elevada nas bicicletas também dificultava, e de que maneira, nas subidas!
Fomos habituando o corpo ao esforço e em breve a maior preocupação, principalmente após escurecer, era a orientação.
A entrada por trilhos em zona de mata, com vegetação abundante e a escuridão que se verificava

em todos eles, aliada a uma deficiente marcação de algumas zonas do caminho foram-nos complicando a vida.
No entanto a determinação manteve-se forte funcionando muito bem o espírito de corpo nos momentos de maior dificuldade.
Em cada cruzamento duvidoso toda a zona era batida calmamente até encontrarmos o caminho certo e pouco a pouco os Km's iam sendo percorridos.
A passagem em Santa Maria do Monte marca o início das dificuldades quando após um cruzamento, por inexistência ou confusão devido à escuridão, perdemos as marcas do GR28 e passámos a seguir as marcas de um qualquer PR. Algum tempo depois desconfiámos que algo devia estar errado devido à diferença de cor nas marcações mas por motivos de segurança decidimos seguir as mesmas.
Passámos então por um lugar onde as ruas tinham uma inclinação elevada o que nos fez empurrar, com dificuldade, as bicicletas até

voltarmos a ficar num beco sem saída.
Nova batida à zona e lá descobrimos as marcações numa pequena ruela que nem tínhamos visto à passagem. Suponho agora que a povoação era Adafães dado que na aldeia seguinte verificamos que nos encontrávamos no PR4 e depois confirmámos, junto a umas pessoas que por lá estavam e com quem falámos em francês, que a aldeia se chamava Ameixieira.
Consultado o mapa verificámos que estávamos desviados da rota cerca de 3 Km's. Fizémos a ligação a Souto Redondo por estrada a fim de voltar ao Gr28.
Nessa altura deu-se outro episódio que viria a marcar a aventura que foi ver no cimo de um monte, ainda algo afastado mas na direcção do nosso destino, as labaredas iniciais de um incêndio.
Antes de partirmos de Arouca e dada a quantidade de fumo que se via no ar falámos com os bombeiros para apurar qual a situação dos incêndios na região. Ficámos então a saber que em Alvarenga havia um foco de incêndio mas no resto não se verificava qualquer problema. Agora deparávamo-nos com a possibilidade de pedalar de encontro a um e ainda por cima teríamos que atravessar toda uma zona de mato que, segundo relatos, poderia mesmo estar intransponível em determinadas passagens. Esse pensamento de podermos ser cercados pelo fogo em plena floresta a arrastar bicicletas criou alguma tensão.
Apercebi-me então que a distância a que este se encontrava, a altitude, a ausência de vento e a quase certeza que a vegetação no local seria rasteira e pouca nos daria muito tempo de fuga se tal fosse necessário e numa leitura rápida à carta militar entendi que estávamos no caminho correcto se a evolução do fogo, que mantinhamos à vista, fosse mais rápida que o previsto. Estabeleci assim mentalmente a saída de emergência e convenci o meu companheiro de que era esta a solução.
Pedalávamos então a caminho de Souto Redondo para retomar o GR28 e logo que lá chegámos seguimos para o objectivo seguinte, o lugar da Póvoa.
Nesta fase do percurso nenhum trilho facilitava a vida, subiam, subiam, uns com mato outros com pedras pelo que a evolução era lenta, dolorosa e cansativa.
Não sei que horas seriam quando chegámos à Póvoa mas deveriam ser muito perto da 23h.
O fogo, tal como eu tinha previsto mantinha-se longe e lento na sua evolução o que nos tranquilizou e nos fez continuar pelo GR escolhido.
Acabámos então por entrar na parte crítica do percurso. O trilho já é mau mesmo para caminhar quanto mais para empurrar bicicletas carregadas como as nossas.
O primeiro problema deu-se num cruzamento de caminhos em plena mata. Nem indicações para a esquerda nem para a direita. Fizémos um reconhecimento para ambos os lados e em nenhum aparecia qualquer marca. Marquei mentalmente o ponto de chegada, caso fosse necessário regressar à aldeia e evoluímos por um dos caminhos. Passadas umas dezenas largas de metros nada de marcações e mato cerrado. Numa picada ascendente na qual ainda fiz uns metros a pé também nada, mato cerrado e nada de marcas.
O meu frontal, com pilhas chinesas compradas pelo Vicente já se tinha apagado e dependia das luzes do Vicente e da minha lanterna da bicicleta reduzindo um pouco o meu campo de visão. A noite estava escura e o facto de nos encontrarmos no meio das árvores ainda tornava tudo mais escuro. O mato por vezes elevado dificultava o resto escondendo as marcas.
Resolvemos então regressar ao cruzamento para bater o outro caminho ou regressar à aldeia. Por sorte e já quase a chegar à bifurcação apercebi-me que à minha direita existia uma picada e bingo, lá estava uma marca escondida pelo mato.
Continuámos então a pedalar calmamente. Nesta fase ainda se podia pedalar e assim o fizémos por mais umas dezenas de metros até que tal deixou de ser possível.
Ia começar a fase mais desgastante de toda a etapa e nem imaginávamos o que nos esperava a partir daí.
Empurrando as bikes trilho acima chegámos ao primeiro ponto em que o caminho pareceu desaparecer. Mais uma batida ao lugar e percebi que o hipotético caminho em frente não nos levaria a lugar nenhum. Regressado junto do meu companheiro de aventura resolvi seguir por outra hipótese que me pareceu estar batida pelo calcar de caminheiros e efectuei uma boa centena de metros na esperança de finalmente chegar à estrada que leva à Mizarela.
Compreendi que a partir dali só com trabalho de equipa conseguiríamos subir as bicicletas, mas quanto a estrada nada.
Regressei novamente junto do Vicente e disse-lhe o que tinha obeservado e o trabalho que teríamos que fazer. E assim foi! Pegámos numa das bicicletas e a dois levámo-la por cima de pedras e troncos e mato umas dezenas de metros acima. Regressámos e levámos a outra. Fomos assim galgando metro a metro até mais uma vez encalharmos numa linha de água.
Estávamos estourados, a noite estava abafada, estava calor, suávamos muito e a grande quantidade de água que levávamos diminuia a olhos vistos.
A porcaria da linha de água que se nos deparava ameaçava a progressão e levantava, mais uma vez, o fantasma de termos que regressar à aldeia.
Nesta fase não sabíamos qual a evolução do incêndio e estávamos num posição muito complicada para qualquer fuga se a situação se complicasse. Nem o abandono das bicicletas e material garantiriam que sairíamos a tempo para a aldeia, dado que o trilho era complicado, e a orientação feita às escura poderia, em caso de precipitação, poder tornar-se bastante problemática.
Decidi deixar o Vicente a descansar e embrenhei-me pela linha de água para apurar da viabilidade de prosseguirmos o caminho. Percorridos apenas uns metros verifiquei que por ali era impossível fazê-lo.
Nessa fase a leitura da carta militar era muito difícil. Não sabíamos exactamente onde estávamos, o cansaço impedia a cabeça de pensar correctamente e a possibilidade de termos de regressar carregando as bicicletas picada abaixo abalavam a confiança.
No regresso da batida pela linha de água apercebi-me que à minha esquerda parecia que o mato estava pisado levando-me a suspeitar que poderia estar ali o ponto de passagem que precisávamos. Avisei o Vicente da intenção de bater a zona e embrenhei-me por aquele corredor verificando com alegria que era a solução do nosso problema. Decidi continuar mais um pouco e em breve o caminho alargava e o mato desaparecia e só parei quando encontrei o que me pareceu ser uma campa, com fotografia da vítima e data de nascimento e falecimento.
Convenhamos que naquela situação, à noite e num lugar como aquele não foi muito agradável a visão. No entanto o facto de ter encontrado o caminho de saída deixou-me bastante satisfeito e mais descansado.
Regressei junto do companheiro de aventuras e contei-lhe a novidade. Pude também constatar na carta militar qual era então a nossa posição correcta no terreno e perceber que já estávamos relativamente perto da estrada.
Carregámos as bicicletas para o caminho e passámos novamente a carregar cada um a sua. O caminho já permitia que o fizéssemos. Passámos na campa, que afinal parece ser apenas um memorial a uma vítima que terá falecido naquela zona em 1984.
Voltámos a pedalar por mais uns metros e depois o caminho, agora largo e limpo, segue em direcção à estrada mas com uma inclinação brutal. Extenuados lá fomos empurrando as bicicletas em busca da desaparecida estrada.
Cheirava a fumo e o ar estava pesado e quente. Pensei cá com os meus botões que era mesmo necessário chegar rapidamente à estrada para verificar qual a situação do incêndio e cerrei os dentes arrastando comigo o Vicente. Pouco depois chegávamos finalmente à maldita estrada.
Decidimos seguir pela estrada até ao parque de campismo e ignorar a subida à via Romana. Já chegava de tanto empurrar bicicletas e estava fora de hipótese voltarmos a meter-nos dentro da mata.
Na primeira curva que demos na estrada pudémos então ver as chamas que devoravam a serra lá para os lados do parque de campismo. Surgiu a dúvida de seguirmos nessa direcção ou descermos para Arouca e darmos por finalizada a actividade.
Em conversa com pessoal que descia a serra ficámos a saber que o fogo estava perto do nosso destino mas que os bombeiros já lá tinham um efectivo para combate ao fogo. Continuámos na direcção do parque e ao chegar à Srª da Laje pudémos então verificar que a contra-encosta do parque ardia numa frente bastante larga e todo o aparato de carros do bombeiros, GNR, mirones, aldeãos. A estrada de acesso ao parque estava cortada pelo que tivémos que entrar na aldeia do Merujal e entrar no parque pela estrada que vem da Mizarela. Chegámos pelas 2 horas da manhã após 6 horas de luta pelo mato dos trilhos.
A preocupação estava estampada no rosto de todos aqueles que já se tinham apercebido que o fogo se aproximava do parque.
Fomos para o bugalow onde descansámos um bocado, mas depois fomos ver a evolução do fogo.
E fomos assistindo ao aproximar

das chamas e ao combate levado a cabo pelos bombeiros que acabaram por fazer contra-fogo e assim evitaram que as chamas evoluissem no sentido do parque.
Eram 6 horas quando finalmente nos deitámos para dormir e 9 quando nos levantámos. Os aviões Canadair voavam sobre o parque a caminho dos diversos fogos que assolavam a serra.
Decidimos que as condições de segurança para a continuação da travessia não estavam reunidas e que aventurarmo-nos numa serra a arder e dormir algures no monte sujeitos a esse flagelo não era muito inteligente.
Regressámos a Arouca pela estrada e acabámos em Chão d'Ave a recuperar do esforço da noite anterior.
Esperamos continuar o Gr28 logo que tal seja possível, fazendo as duas etapas que faltam.

4 comentários:

Foi bastante dura esta etapa devido ao formato que escolhemos (nocturno e com alforges nas bicicletas). Desanconselho-a a pessoal que não esteja devidamente preparado fisicamente,bem motivado e com alguma experiência em brincadeiras destas. Levar bicicletas carregadas com alforges por aquelas picadas está longe de ser uma boa ideia. A marcação do trilho pode ser boa para actividades diurnas mas de noite tudo é bastante mais complicado e a desonrientação pode surgir com facilidade, o que pode acarretar alguns problemas graves.
No entanto deu uma pica enorme realizá-la e exigiu de nós uma boa determinação, um trabalho de equipa excelente, grande capacidade de decisão e bom desempenho físico. No fundo teve todos os ingredientes de que gostamos.
Pena o flagêlo dos incêndios que para além da destruição do ambiente natural de que tanto gostamos tenha também desaconselhado a continuação da actividade.
Até nesse momento difícil considero que fomos inteligentes ao perceber que era o momento de retirar.
Já estou pronto para a próxima...

Uma aventura, que apesar de não totalmente cumprida, acabou por dar bastante satisfação fazer, quer pelo grau de dificuldade elevado, quer pelas decisões que tiveram de ser tomadas em tempo real. Duas condições foram essenciais para que tudo corresse da melhor maneira: a nossa boa forma física e a capacidade de decisão em alturas críticas por parte do Calé.
De referir que o parque foi evacuado pouco tempo depois de lá chegarmos, resolvendo nós ficarmos lá e disponibilizando-nos para qualquer ajuda, junto dos responsáveis do parque.
Tudo indica que mais uma vez foi fogo posto e é pena que este tipo de crimes continue quase sempre impune.

Grande Aventura
Com o fogo ali ao lado.
A progressão dos fogos é de muito difícil previsão, principalmente com eucaliptos, (não sei se era o caso).
Ainda bem que já estão prontos para outra.
Aquele Abraço,

Daniel

É verdade Daniel, mas esta actividade já era para ter algum factor de risco, atendendo ao desconhecimento desta parte do terreno, ao facto de ser nocturna e de irmos carregados. Eram estes alguns dos aliciantes.
O fogo foi um imprevisto que nos fez tomar decisões e penso que não nos saimos mal. Tivémos sempre em atenção a evolução do incêndio e apenas perdemos o contacto visual na parte final em que as características do terreno são mesmo muito complicadas. No entanto a distância e a evolução lenta e no sentido oposto do mesmo deram-nos a confiança para arriscar a subida à estrada pelo trilho. Correu bem.
Parece-me que a próxima grande aventura será a ida a Santiago pelo Caminho do Norte. Vai ser mais um teste duro às nossas capacidades.
A ver vamos qual será o resultado.