Sanabria - Peña Trevinca...

30/05/2010

Linha do Douro - de Barca d'Alva ao Pocinho


Apesar da vontade de efectuar esta actividade há uns anos só agora surgiu, finalmente, a oportunidade de realizar a travessia Barca d'Alva - Pocinho pela parte extinta da Linha Férrea do Douro que ligava estas duas povoações. Para esta travessia contei com a companhia de mais oito companheiros que se juntaram a mim para dois dias de marcha pela linha.
Partimos, no final de sexta-feira, para Vila Nova de Foz Côa para pernoitarmos na Pousada da Juventude. De Aveiro partimos (Calé, Cardoso, DJ e Bruno) e já na Pousada encontrámo-nos com o pessoal do Porto e Ovar (Pina Jorge, Borges, Hugo e Amaral). Chegados à Pousada fomos surpreendidos por uma garrafa de champanhe e um bolo levado pelo Amaral para comemorar o encontro para mais uma actividade.
Depois de uma noite bem dormida (por alguns) tomámos o pequeno-almoço enquanto esperávamos que o último elemento, o Marcelino, se juntasse ao grupo.
Pouco depois chegavam os táxis que nos levariam a Barca d'Alva.
Chegados às ruínas do que em tempos foi uma bela e imponente estação preparámos as mochilas, grandes e pesadas e partimos em direcção à aventura.
Atravessámos a vila, sempre pela linha, e fomos logo percebendo que a tarefa não iria ser fácil, pela pedra e pelo mato que já se verificava existir no trilho.
O calor também se fazia sentir e à medida que os Km's se sucediam, os pés começavam a sentir as pedras da linha, os ombros o peso das mochilas e uns arranhões no mato complementavam o cenário.
Chegámos à primeira ponte da viagem e logo com um início sugestivo, dado que os passadiços nos primeiros metros já não existem. Com cuidado e usando o corrimão para equilibrar lá fomos passando até à parte em que ainda existe passadiço e depois com mais à vontade superámos o resto da ponte.
Mais uns metros e surge na via o primeiro túnel, escondido entre o mato, que atravessámos aproveitando a frescura do mesmo.
Aproximávamo-nos agora da antiga estação de Almendra que atingimos passados uns minutos. Aproveitámos para descansar e beber alguma água e comer qualquer coisa.
A paisagem apesar de bonita tornava-se monótona com o Douro a correr lentamente mesmo ao nosso lado. A linha decorria (ou decorre) sempre ao lado do rio.
Até aí e desde a saída de barca d'Alva nem uma simples alma apareceu no caminho. O silêncio envolvia-nos quebrado apenas pelo ruído causado pelo caminhar no cascalho sempre presente em toda a Travessia. Continuámos então o trilho com destino a Castelo melhor, a próxima estação da linha. Mais cascalho, mato e o mesmo ambiente melancólico, quente e sem vivalma, com excepção dos elementos do grupo.
Uma nova ponte, esta com passadiço completo num dos lados, e surge a primeira presença humana até ao momento num barco turístico que subia o rio até Barca d'Alva.
Pouco depois chegávamos à abandonada e em ruínas estação de Castelo Melhor local onde aproveitámos para descansar.
Retemperadas as forças decidimos continuar até à próxima estação, a do Côa, passando então pelo segundo túnel do percurso.
E lá continuámos a calcar o cascalho da linha, as travessas e os carris, agora com muito mais mato, o que impedia muitas vezes de ver além do espaço que percorria-mos, aumentado o calor e causando mais arranhões nos caminheiros.
Este pedaço tornou-se longo, pela carga que nos massacrava os ombros, pelo cascalho que começava a dar cabo de tornozelos e pés, pelo mato que dificultava a progressão e pelo calor que tornava tudo mais difícil. A paisagem monótona e sem grandes alterações também não ajudava muito. Apenas alguns barcos que iam passando animavam um pouco o momento, com acenos de turistas para caminheiros e vice-versa.
Mais uma ponte, donde alguns jovens mergulhavam para o rio (Rio Côa) e onde sem dificuldade, devido ao bom estado do passadiço, atravessámos em direcção à estação de Côa.
Mais uma ruína do que foi outrora uma estação de comboios.
Decidimos que seria nesta estação que iríamos montar o acampamento.
Após um banho no Rio Côa, com alguns dos elementos mais arrojados do grupo a tomar banhos nas águas frescas deste rio, fomos montar as tendas e preparar o jantar.
Uma bela ideia do Amaral surgiu quando se lembrou de contactar o taxista que nos tinha levado a Barca d'Alva e solicitar que nos levasse duas grades de minis à estação de Côa. E assim foi, passados alguns minutos lá estava o Sr. Rui com duas grades de minis frescas e gelo para as manter nesse estado. Aqui tenho que salientar a simpatia de todas as pessoas com quem contactámos, quer na Pousada da Juventude, quer o pessoal dos táxis, sempre disponíveis para ajudar.
Não vou dizer quantas cervejas bebi porque nem eu sei, mas tirando os adeptos dos Ice-Tea (bem hajam) os outros "mataram" a sedinha toda.
O amigo Pina Jorge com a colaboração de outros elementos fizeram uma fogueira onde assaram umas chouriças e morcelas que complementaram a dieta de todos.
Chegou a noite e aos poucos, não antes de acabar com as bebidas espirituosas que alguns elementos transportaram, cada um recolheu à sua tenda.
Lá pelas 5h30 da manhã os primeiros elementos acordaram e saíram das tendas, acordando os restantes. Nem vos vou contar o que eu e o Amaral ouvimos de reclamações. Mas lá tiveram que sair das tendas.
Material arrumado e pequenos-almoços tomados lá seguimos o caminho, ainda pelo fresco da manhã, em direcção à estação do Pocinho.
Tudo continuava na mesma, silencioso e melancólico com o rio a correr lentamente, aparentando mesmo estar parado. Apenas uns canoístas solitários remavam ao fundo no rio quebrando a nossa solidão.
Passámos por uma ponte em pedra e por algumas casas abandonadas na via, tal como as anteriores em ruína.
O percurso começava a fazer as suas vítimas e alguns de nós aparentavam algumas dificuldades em manter o ritmo, com pés e articulações moídas pelas pedras do caminho.
O percurso aproximava-se do fim e finalmente chegávamos à estação do Pocinho.
Aqui refrescámos com uns cervejolas acompanhadas de umas sandes de presunto e paio e depois seguimos para a Pousada de Foz Côa onde tínhamos os carros.
Para terminar, uma bela refeição retemperou-nos as forças e fez-nos esquecer das bolhas e das dores da jornada realizada.



6 comentários:

Apesar da quantidade de cascalho e mato eu gostei da marcha.
O percurso é um pouco monótono dado que a paisagem é sempre semelhante, o cascalho causa algumas mazelas e o calor não ajuda mas para mim valeu a pena percorrer este trilho e já estou preparado para outras vias férreas.
Quanto à companhia vou ter que repensar. Salvou-se o Pina Jorge com as chouriças assadas e o Amaral com a ideias das minis...

A malta queixasse mas na próxima aparecemos sempre :)... De facto os cascalho e a monotonia da paisagem fez-nos ter saudades de uma actividade "à Calé", com subidas e descidas, com variações das paisagens, daquelas que nesses dias nos queixamos também.

No relato, ficou apenas a falar a minha aventura TT para recuperar o vasilhame das cervejas :)...

Desta apenas tenho uma reclamação SÉRIA E GRAVE:
-Já todos sabemos que o Amaral está farto das pretas, mas bem que podia deixar os amigos desfrutarem quando eles lhe pedem "Manda vir pretas"...
Mas não, tem de ser teimoso e querer apenas loiras :):)

PS: Antes que ele seja posto a dormir na rua, deixa-me esclarecer que estou a falar de cervejas :)

Desde criança que eu sonhei com uma vida de aventuras. Mas uma coisa que aprendi foi que nas serras e vales não ha lugar para gente pobre. Eu sei que os aventureiros não são necessariamente ricos. Apesar de todos os meus esforços, não consigo passar desta vida de horarios rotativos e empregos precários. Mesmo com cursos é muito dificil quando não ha cunhas nem sorte. Para se ser aventureiro é necessário ter estabilidade financeira e um horario adequado, o das 9 as 5, com fins de semana, ou pelo menos a maioria deles. É muito triste para mim, sonhar com fins de semana que façam valer os dias de trabalho, momentos de felicidade vividos a sentir o fresco da manhã no rosto num vale verde, a imensidão de uma serra cheia de neve, o gosto de chegar ao fim do dia á volta de uma lareira e aí SIM: sentir que vale a pena viver. Voces entendem isto certamente. Entretanto vou aguardando na tristeza e luta sem fim á vista, em Centros de Emprego, em jornais e internet á espera de mais um precário, rotativo e mal pago e a sonhar com terras e paises distantes, enquanto isso ouço as pessoas, com uma frieza "Ah aguente-se, eu tambem queria muita coisa". Pessoas que passam a vida em shoppings e bares não entendem isto.Mas quem ama a natureza e a aventura sofre, o tempo passa, e os momentos que não foram vividos numa maravilhosa aventura, nunca mais voltam...cumprimentos. P.G.

Caro(a) P.G.

Infelizmente o rumo que o país está a levar impede a possibilidade de muitos dos seus cidadãos terem uma vida digna que permita a realização dos seus sonhos. É a triste realidade em que vivemos.
Espero que com isto não julgue como culpados da situação os elementos do Espírito-de-Aventura simples cidadãos que canalizam grande parte dos seus tempos livres e alguns dos seus recursos, que também estão longe de ser avultados, para algo melhor do que ir para bares e centros comerciais.
Apenas nos resta desejar que as coisas lhe corram melhor e quem sabe acompanhá-lo(a) numa qualquer actividade por uma serra deste país.

Alberto Calé

Para o anónimo: não desista.

Continuo a gostar do ambiente do fim do dia e do nascer do dia desta região. A frescura e a luz mais amena em oposição ao sol forte durante o dia.
A "organização" deixou um pouco a desejar. Calé, vais ter de continuar com esta tarefa até atingires um nível aceitável...
A companhia foi boa (estou a falar das senhoras da pousada) e bastante útil (estou a falar do taxista com as minis).
Que venha a próxima.
Abraços.
Pedro Cardoso

"estou a falar das senhoras da pousada": Então não eram a mesma, na versão com e sem maquilhagem???